- O que você está fazendo aqui?! - num momento de espanto perguntei, ao vê-lo parado na porta do meu quarto, já que decidi viajar sozinha sem avisar ninguém (ou quase).
- Você sumiu do nada! Se eu não apertasse a Nay pra ela me... Vixi, falei demais...
- Ela, mais do que ninguém, sabia que eu precisava ficar sozinha! - me sentia traída, ferida, mas sei que esse era o jeito que ela havia encontrado de demonstrar afeto, preocupação. 

Ele simplesmente entrou, como já havia feito antes. Não que eu tenha permitido, mas também não havia feito absolutamente nada pra impedir. Cada um se mata como pode, uns bebem... Outros se apaixonam... Já eu, fiz os dois, porque desgraça pouca, é bobagem.

- O que você veio fazer aqui, sozinha?
- Sofrer por mim - respondi com certa rispidez. 
- Sofrer por ele, você quis dizer...
- Não,  sofrer por mim. Ele não tem culpa de nada, ele nem sabe da minha existência. Eu permiti que ele se tornasse a mais bela das criaturas aos meus olhos, que seu perfume me levasse a um tipo de torpor que nem a droga mais forte do mundo poderia causar.

Já não posso mais beber sem passar mal no primeiro gole. Nem descontar na comida pois a gastrite me xingaria de santa pra baixo. Me entupir de remédios? Nem pensar, a gastrite ataca. O que me resta? Sofrer.

As vezes esse sofrimento transborda em lágrimas, as vezes numa vontade doentia de dormir e nunca mais acordar. As vezes traduz-se num vazio de tudo: sem fome, sem tristeza, sem dor. O que é igualmente doloroso, pois não sinto compaixão por nada.

Queria saber em qual momento me tornei o monstro, a criança que se perdeu da mãe no supermercado, o poço de insegurança... Foi tudo tão lento ao redor e tão rápido dentro de mim que quando percebi já me sentia uma viciada em crise abstinência.

Por um descuido, um lapso de arrogância, me perdi no que criei sobre ele, mesmo tendo plena consciência de tudo não passa de fantasia, eu me perdi. O pior é que não me perdi nele, me perdi em nós... Me perdi em mim.

- Será que esse cara não percebeu nada disso? - pergunta ele com a inocência de uma criança.
- Talvez eu não tenha demonstrado como deveria. - respondi com certa cautela, talvez não fosse o momento para me abrir (como se já não estivesse exposta o suficiente).
- Quando você pretende dizer isso a ele? - perguntou com certa curiosidade.
- Acabei de dizer.

4 Comentários

  1. Que texto lindoo! As vezes acabamos sofrendo por um alguém que está ao nosso lado e ele as vezes nem percebe mesmo.
    Parabéns pelo texto!

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    1. Sim, e as vezes a pessoa está tão acostumada ao teu jeito, que fica difícil interpretar algumas coisas.

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  2. Woooow, adorei!
    Você deveria escrever mais textos assim =D
    BJoo!

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